“Meu nome é Vanessa Comitre, eu sou modelo há sete anos. Minha mãe era modelo da Valisére e achava que uma das suas três filhas tinha que ser modelo. Para perder um pouco do meu complexo, (eu era meio feinha, usava aparelho e botinha ortopédica), minha mãe me inscreveu em um concurso da Ford do litoral Sul (São Paulo), que elegeu a Garota Verão (Miss Itanhaém, Peruíbe, essas coisas). Eu não tinha nem sapato e nem uma calça jeans para vestir, e fui classificada entre quinhentas meninas. Foi maravilhoso, pra mim foi o dia mais feliz da minha vida, eu entrei com o maior sorriso, eu estava muito feliz, aquilo era tudo para mim. Levantou o meu ego e botou uma coisa na minha cabeça: eu nasci para brilhar, eu nasci para ser modelo. Só que é muito difícil você conseguir manter isso na sua cabeça.”

“Meu pai era um playboyzinho que andava de kart e minha mãe era sete anos mais velha que ele. Ele ficava no sofá da sala, largado, bêbado, ouvindo Led Zeppelin no último, e as três filhas crianças nem podiam assistir televisão. O sonho dele era montar uma banda de rock, então ele fazia as três ficarem lá cantando e dançando junto com ele na sala. Aquilo foi meio que um tormento psicológico, um trauma. Ele nos deixou quando eu ainda era criança. Acho que o pai para uma menina é muito importante, é a segurança, o Superhomem, e ele ter saído foi muito triste. Enquanto minha mae era viva, ela também sofreu muito com isso, a gente não se dava muito bem, porque eu achava que o meu pai era o Superhomem, e minha mãe a carrasca. Até eu descobrir quem era meu pai na verdade: um moleque, irresponsável, que preferia tomar uma cerveja, escutar um som, a pagar uma conta de luz ou botar uma comida pra dentro de casa. Um dia, minha mãe faleceu de câncer de mama e tive que encarar a realidade. Me senti perdida, e agora? ”

 

“... e quando um proprietário de uma marca famosa aparece na agência, o dono da agência cutuca e fala, esse ai é dono de tal, aí a garota pensa que vai ser lançada, vai ser a estrela daquela marca. Ela sai, e dá. Às vezes se expôe na frente de todo mundo beijando aquele velho nojento, e no final das contas, no dia seguinte o cara nem sabe o nome dela. Quantas...”

 
NU
“Posar nua... pra mim, olha nunca pensei em fazer isso. o maior motivo para fazer isso é porque eu não tenho pai nem mãe. Há cinco anos que eu tenho noção do que é pagar aluguel, comprar uma pasta de dente, um pão com manteiga. Eu tenho noção de tudo que eu gasto. Tudo que eu vou fazer na minha vida eu tenho que trabalhar. Se eu quero dormir, se eu quero tomar banho, eu tenho que ter dinheiro. Mesmo tendo dinheiro você tem que manter a sua moral, a sua auto estima, o seu brilho pessoal. Você não pode deixar ninguém te detonar. Então pra mim foi importante fazer a revista porque eu vou comprar a minha casa, eu vou deixar de pagar aluguel, pra mim é muito importante, porque é um dinheiro que eu vou investir em outras coisas, como estudos. Eu tenho duas irmãs mais novas das quais eu me orgulho, porque eu criei essas meninas, desde os 13, 14 anos, foram crianças que eu eduquei e tive que explicar tudo: adolescência, sexo... Tenho uma sobrinha de três anos, a coisa mais linda da minha vida, se não fosse ela a minha família não estaria unida, eu já teria catado as minhas coisas e teria vindo morar com outras modelos em São Paulo, seria muito mais fácil.”


“Minhas irmãs são minhas amigas, minhas produtoras, elas são minha mãe e meu pai, são tudo pra mim. Eu não faço nada sem falar, oi família, eu vou fazer isso, o que voces acham? Minha família é minha direção, o que elas acham importante, pra mim é importante.”


VIDA DE MODELO

“A genta fala de regime, não é que a gente faz regime, a gente não tem tempo nem dinheiro para comer. Agência de modelo é muito importante, é bom para você porque dá um pouco mais de segurança. Só que ao mesmo tempo eles fazem tudo por grana. A agência quer vender você de qualquer forma, não interessa como, que preço, eles querem te vender, essa é a parte deles. Então tem que tomar muito cuidado com determinadas agências. Eles não tem noção, propõem pra todas: você dá pra um cara por mil e quinhentos? As meninas são pegas de surpresa, ai elas olham pra carteira, olham pra conta bancária, dívida, falam, por que não? Só que quem entra não sai mais, fez uma vez não pára mais.”

“Testes que demoram três, quatro horas, você lá em pé, muitas vezes eles mandam você para um teste por mandar... Eu cheguei a ser escalada para um casting de negras. Se eles tivessem mais respeito, mais carinho pelo ser humano, as meninas renderiam melhor, vestiriam mais a camisa da agência. Eles não querem que você cresça culturalmente, pra eles não é interessante, porque se eles te mandam pra fora é mais fácil te controlar, te direcionar. Eles trabalham muito com meninas novas, porque menininhas não têm noção do que é uma carreira dessas. Já cheguei a ouvir do dono da agência: "eu poderia te trabalhar melhor se você me obedecesse.”

“Modelos ganham razoavelmente bem, as pessoas acham que uma capa de revista é tudo, mas não é. Uma capa de revista é onde você menos ganha. Uma vez fui para a Espanha, fiquei trancada o dia inteiro dentro do apartamento, tu não come, tu não respira, tu não faz nada. Tu sai, faz a foto, volta, trabalho, desfila, volta. Não sai pra nada. Fora as pessoas que ficam te vigiando o dia inteiro dentro da casa. Você tem vontade de sair correndo. Você tem vontade de se jogar de uma ponte às vezes. É muita pressão. Vida de modelo não é de princesa. Você pasta, muito. É aquele negócio, você chega todo dia do trabalho e você chora. Chora porque as pessoas te desrespeitam, não tem noção do que é um ser humano. Acho que respeito é tudo nessa vida, e a maioria das pessoas deste mundo não tem. Pra mim foi bom, eu cresci muito. Você tinha que ter uma cabeça melhorzinha pra tudo, para lidar com esse povo ai fora, principalmente esse povo da moda, que pra eles tudo é liberado, cabeça aberta, né? Tudo pra eles é normal... e não é bem assim pra todo mundo.”



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