[english version here] | entrevista por ignacio aronovich / lost art

 

John G. Morris é o EDITOR DE FOTOGRAFIA mais experiente do mundo. Em sua distinta carreira, John foi o correspondente de Hollywood para a revista LIFE, editor de fotografia da LIFE (*) durante a Segunda Guerra Mundial, o primeiro editor de fotografia da agência MAGNUM Photos, editor de fotografia do jornal Washington Post e do The New York Times, e editor correspondente da revista National Geographic.




1) Qual é a pergunta mais frequente em suas entrevistas?


Frequentemente me pedem para contar a história (*) das fotos do Dia D do Robert Capa .



2) Sua carreira é parte da história do fotojornalismo, não só como testemunha mas também como participante chave na definição da memória visual do último século. Como você se sente por ter escolhido as imagens publicadas que ficarão para sempre como os ícones do nosso tempo?


Frustrado. Eu sinto que o mundo não aprendeu tanto lendo essas publicações como eu esperava-ainda temos conflitos hoje.

 


3) Na época antes da televisão, como editor de fotografia da revista LIFE você era responsável pelo conteúdo visual da "força editorial mais poderosa da América". Como editor, você sentia que poderia manipular a percepção pública dos acontecimentos através da sua seleção de imagens? Qual era a sua consciência disso?


Eu estava bem consciente que nós eramos parte do esforço da guerra.

 


4) Você conviveu com Robert Capa, Henri Cartier-Bresson, Chim, Werner Bischof, Erwitt, Sebastião Salgado, W. Eugene Smith, só para listar alguns dos maiores fotográfos que você editou. Você tem um fotógrafo favorito?


Eu sempre digo que aprendi mais com Capa pelo lado pessoal (ele me mostrou Paris, por exemplo); ele era um fotojornalista magnífico. Henri me ensinou a julgar fotos como arte e a pensar sobre elas. Gene Smith me contagiou com a sua paixão. Eu amava todos, e você poderia acrescentar Ernst Haas, um fotográfo verdadeiramente grande que foi negligenciado.

 


5) Você editou imagens icônicas que tiveram grande impacto mundial. Imagens como a foto (*) do Eddie Adams (*) da execução no Vietnâ, apenas para citar um exemplo. Qual imagem você acha que conseguiu trazer mais mudanças em algum acontecimento?


Quem sabe essa imagem do Eddie Adams (publicada por Morris na capa do New York Times), que chocou os americanos e os fizeram perceber como aquela guerra era brutal.

 


6) Você fotografou um soldado alemão capturado no Porto de Saint-Malo durante a Segunda Guerra Mundial. Alguns minutos antes este soldado estava atirando em você. Quando você tirou essa foto, pensou "pobre garoto". Você obteve alguma informação sobre o soldado na foto depois deste dia?


Não. Eu não sei com certeza absoluta se foi ELE que estava atirando em mim, ele era parte de um grupo e um deles provavelmente tentou me acertar.

 



7) O período após a libertação de Paris foi único. Você conheceu Cartier-Bresson e ele lhe apresentou a Doisneau e Brassai (entre outros). Você também conheceu Marlene Dietrich nesta época. Como você se sentiu quando descobriu/conheceu estes fotógrafos nesta época?


Muito afortunado.

 


8) Você citou "estar deprimido sobre o insucesso do público em reagir ao que nós fizemos até agora". Após um século de imagens fortes, humanos ainda estão em guerra, torturas ainda ocorrem, e atrocidades continuam. Somos bombardeados diariamente por imagens incessantes de todo o mundo. Perdemos a sensibilidade? Imagens ainda podem trazer mudanças, mesmo se "a criança do futuro pode ser seu próprio editor escolhendo imagens de um menu diário"?


Essas são boas questões e eu não sei as respostas.

 


9) A mídia mudou o seu foco de notícias para entretenimento. Celebridades vendem mais revistas do que assuntos globais. A organização Médicos Sem Fronteiras acaba de publicar um relatório intitulado "As 10 Matérias Humanitárias de 2006 Com Menos Cobertura". Você disse, "Inverdades estão nas coisas não fotografadas." Você acha que documentar estes assuntos pode trazer mudanças?


Essa tem sempre sido a minha esperança. Uma coisa que eu acho encorajadora é que agora temos mais chance de ver os DOIS, ou TODOS os lados de um conflito.


10) Na França (e no Brasil) droit d'auteur
(*) (direitos autorais e de imagem) e uma percepção maior dos direitos individuais tornaram a situação cada vez mais difícil para os fotógrafos. Alguns fotógrafos brasileiros foram processados por pessoas fotografadas em situações públicas. Como resultado, alguns têm ido ao extremo de fotografar apenas pessoas de costas, temendo serem processadas por pessoas que possam se identificar nas imagens. Fotos espontâneas na rua estão ameaçadas e projetos de documentação ficam sujeitos à ações judiciais. Mais e mais lugares restringem a fotografia e limitam o seu uso. Até a iluminação noturna da Torre Eiffel está protegida por copyright. Há um fim para tudo isso ou os fotógrafos terão que ignorar/contornar estas restrições (e assumir as consequências)?


Este é um problema terrível, especialmente se inibe os fotógrafos de tirarem fotos da vida REAL ao invés de situações montadas.

 


11)A fotografia digital e a internet mudaram o mundo. Agora temos cobertura instantânea de assuntos globais não só através da mídia tradicional mas também de amadores, graças à popularização das câmeras digitais. Indivíduos podem transmitir e publicar suas imagens sem intervenções externas. Porém, manipulações digitais e casos recentes de alterações em fotos jogaram uma sombra de dúvida na confiabilidade de algumas dessas informações. Agora que todo mundo pode ser um editor, o que acontecerá?


Editores de Fotografia Profissionais são mais necessários do que nunca. Uma porcentagem enorme das fotos tiradas agora são lixo e não merecem ser publicadas. Alterações são um problema mas fotos sempre foram retocadas.

 


12) Em 1991 você e mais dezessete americanos que moravam em Paris formaram o grupo Americans for Peace em uma tentativa de impedir a Guerra do Golfo e buscar outras maneiras de punir Saddam Hussein. Agora ele está morto e Bush está enviando mais tropas ao Iraque. Você ainda consegue permanecer otimista sobre o futuro?

 


Estou mais preocupado com as ações do meu país-principalmente no Iraque-que jamais estive em meus noventa anos de vida. Sou a favor de uma retirada do Iraque e do desarmamento-começando pelos Estados Unidos.

 

 

13) Depois de todos estes anos, você tem algum arrependimento?


Me arrependo de não ter conseguido convencer as pessoas que "Pessoas são Pessoas, no Mundo Inteiro". Não deveria haver ódio baseado em religião, raça, ou nacionalidade
.

 

14) Qual é o melhor veículo/revista para ver/publicar fotografia hoje?


Na minha visão jornais superaram as revistas. Eu acho que o New York Times faz um trabalho esplêndido com fotografia. Eu dou algum crédito ao World Press Photo. Agências fotográficas de notícias fazem um trabalho muito melhor hoje que fizeram no passado.

 

15) Espaço Favorito para exposições fotográficas?


Difícil dizer. Eu amo as grandes exposições ao ar livre como as do pioneiro Yann Arthus-Bertrand.

 


16) Você fotografa? Você tira fotos para você mesmo? Hoje em dia?


Não, muito raramente. Eu não me vejo como fotógrafo.

 



17) Restaurante favorito em Paris?


Não sou um gourmet. Eu como do outro lado da rua em um lugar muito popular chamado Chez Janou.

 

18) A Coleção John G. Morris na Biblioteca da Universidade de Chicago está aberta para o público?

 

Estará disponível para pesquisadores, mas provavelmente não até o final de 2007 ou o início de 2008. Demora bastante para indexarem tudo e os documentos nem chegaram lá ainda.

 

19) Algum comentário sobre a Magnum hoje?

O milagre é que a Magnum sobrevive, enquanto muitos dos seus melhores clientes não existem mais (por exemplo a Revista Life, e ontem a Time demitiu muita gente)

 

20) Hoje, com transmissões digitais em campo, fotojornalistas viraram seus próprios editores. Como o editor de fotografia mais experiente do mundo, qual seria o seu conselho para a edição?

 

Alguns fotógrafos muito bons são péssimos editores, algo que nunca entendi. Eles falham em não analisar a MENSAGEM transmitida pela imagem. Outros ignoram a FORMA-eu aprendi mais sobre edição deste ponto de vista trabalhando com Cartier-Bresson. Ele aprendeu indo a museus e estudando arte.

 

 

 

 

 

John G. Morris LINKS:

NPPA : It's Just One World

NPPA: A Letter from Paris : John G. Morris Remembers Perpignan

Beyond Words : John G. Morris

Photo Quotes : John G. Morris

Village Voice : Bonjour Bourget by John G. Morris

Get The Picture Book Review by Marianne Fulton

Nieman Reports : Harvard University : Get the Picture by John G. Morris

 

Get the Picture by John G. Morris

The University of Chicago Press

 

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