>>>>> SCROLL >>>>>>> FOTOPROTESTO SP | VIDEO: AÇÃO | REAÇÃO | THIS PAGE IN ENGLISH
Viaduto Jaceguai, São Paulo, 13 de junho de 2013. "Essa foto foi feita no terceiro ato organizado pelo Movimento Passe Livre. Acredito que a maioria ainda estava sem entender o movimento, seu paradeiro e intenções. Dentro desse contexto absolutamente novo no país todo, existia um sentimento de liberdade e essa imagem, em particular, acredito que retrata bem esse momento. O que me chamou muito a atenção foi a marcha, a multidão aos gritos reivindicando seus direitos. O trabalho, inicialmente, foi o que me levou a participar dos protestos. Mas logo percebi que não era só pela pauta que eu deveria estar lá. Existia uma outra motivação, a mesma que tirou tanta gente de casa, e que precisava ser registrada. O interessante foi notar a quantidade de fotos que os protestos geraram, tanto da imprensa quanto dos amadores, em cada ato organizado. Isso mostra cada vez mais a importância da fotografia no contexto de uma sociedade em transformação." Leandro Moraes, fotógrafo.
Terminal Parque Dom Pedro II, São Paulo, 11 de junho de 2013. "Era a terceira manifestação do Movimento Passe Livre. Estima-se que entre 10 e 12 mil pessoas tenham marchado da Praça do Ciclista na Avenida Paulista em direção ao Terminal Dom Pedro II, no centro de São Paulo, sob uma chuva torrencial. Era a segunda vez que eu estava cobrindo os protestos do MPL para uma agência de notícias internacional. Por volta das 19h30, a chuva diminuiu e os famosos bordões dos protestos foram substituídos pelo silêncio. A polícia estava claramente disposta a não permitir que o terminal fosse invadido e os manifestantes, determinados a não recuar. Passageiros assustados saíam do terminal e alguns ônibus foram encurralados. Manifestantes cobriam o rosto e o comércio fechou as portas. Tentei me posicionar ante o inevitável confronto e fui me guiando pelos meus sentidos. Logo subiu o cheiro do vinagre, do spray… "3,20 NÃO!", alguém gritou. Vi, fotografei, para onde olhava, apenas o fogo, os tiros de balas de borracha, o gás lacrimogênio, as bombas e as pessoas correndo." Rahel Patrasso, fotógrafa.
Avenida Morumbi, São Paulo, 17 de junho de 2013. "Essa foto foi feita logo após a grande e longa marcha que teve início no Largo da Batata e percorreu a Marginal Pinheiros até a Ponte Estaiada. De lá, os manifestantes rumaram até o Palácio dos Bandeirantes e tentaram invadir a sede do governo paulista, quebrando as grades do portão de entrada e enfrentando a PM. Após o confronto, os manifestantes permaneceram em frente do portão principal, montando barricadas de fogo na avenida e gritando palavras de ordem. A cena do manifestante usando um tronco de árvore para agitar a bandeira do Brasil representou muito aquele momento da história. Naquele dia, 200 mil pessoas foram às ruas. Desde o impeachment do Collor que não se via uma demonstração de inconformismo, contestação política e luta como esta. Tentei documentar através da minha fotografia esse sentimento, esse desejo de mudança presente em cada olhar dos que estavam nas ruas naquele momento. As manifestações marcaram a história de São Paulo e do Brasil. Meu maior desejo é que essas imagens sirvam como uma centelha e permaneçam no coração de cada um que estava lá lutando por uma sociedade mais justa." Nelson Antoine, fotógrafo.
Avenida Paulista, São Paulo, 26 de julho de 2013. "Manifestantes adeptos à tática Black Bloc convocaram uma marcha para condenar a repressão policial e apoiar os manifestantes do Rio de Janeiro contra o governador Sérgio Cabral. Os adeptos ao modo Black Bloc de protestar têm como princípio atacar os pilares do capitalismo para chamar atenção às questões relevantes da sociedade. Em poucos minutos de caminhada, foi justamente o que aconteceu. Praticamente todos os bancos da Paulista, do MASP até a praça Oswaldo Cruz, foram atacados. No momento desta foto, um ativista subiu em direção ao banco Itaú e, com ele, subi determinado em registrar sua ação. A destruição do banco era uma meta. Todo coberto, o manifestante correu e chutou a porta. Ela não quebrou. Tomado pela emoção, me posicionei melhor, enquadrei e esperei a segunda tentativa. Estávamos apenas ele e eu naquele espaço, e, então, apertei o disparador para registrar uma nova maneira de protestar e que vem para marcar uma fase da sociedade brasileira. Sozinho, o ativista reuniu forças para finalmente destruir a porta de vidro do banco que teve um lucro líquido de 7,1 bilhões de reais no primeiro semestre de 2013." Fabio Braga, fotógrafo.
Avenida Paulista x Rua Bela Cintra, São Paulo, 1 de agosto de 2013. "Após os atos do Movimento Passe Livre em junho, os gritos continuavam e ecoar nas ruas de São Paulo. Nesse dia, o protesto era liderado pelos ativistas Black Bloc, em apoio aos manifestantes do Rio de Janeiro contra o governador Sérgio Cabral, e questionava o paradeiro do Amarildo, o pedreiro da Rocinha que havia sido visto pela última vez nas mãos da PM. Aqui, o ritmo das ruas era de 'Fora Alckmin' e do superfaturamento nas obras dos trens e metrô. Eu e outros fotógrafos saímos do centro e subimos a Avenida Brigadeiro Luís Antônio. No caminho, uma manifestante foi agredida covardemente... e todos ficaram revoltados. A partir daí, os ativistas passaram a agredir verbalmente a PM e o ato começou a ficar mais tenso. Momentos antes de eu fazer essa foto, os policiais tentaram prender um manifestante, momento crucial para começar a repressão. Os policiais se posicionaram e se protegeram com escudos. Um manifestante solitário foi de encontro com os braços abertos. Em um minuto, outras pessoas foram abrindo os braços e dando as mãos uns para os outros em sinal de luta. O Choque só observava, bem próximo. Em seguida, os ativistas não deixaram seus companheiros que haviam sido detidos para trás e seguiram para o 78DP. Continuei e desci a Rua Augusta ao lado deles. E com eles sigo nas manifestações na tentativa de transmitir a essência e a adrenalina dos protestos, além da oportunidade de acompanhar de dentro um momento importante que ficará marcado na história do país." Victor Dragonetti, fotógrafo.
Praça do Ciclista, São Paulo, 1 de agosto de 2013. "O protesto saiu da sede da prefeitura e seguiu calmo até a Brigadeiro, quando um policial descontrolado atingiu o supercílio de uma menina com um golpe de cassetete, em frente de uma academia de ginástica. A partir daquele momento, sentia que a coisa poderia esquentar. Parte dos manifestantes comentava o incômodo da agressão. Já na Paulista, uma cena novamente incomodou os manifestantes: agências bancárias sendo protegidas pela PM. Quando chegamos na altura da Bela Cintra, foi o estopim para o confronto. Um manifestante deu uma voadora no carro de reportagem do SBT. O caos se instaurou por alguns minutos. Manifestantes começaram a ser presos, alguns sem ter qualquer relação com o incidente, enquanto outros começaram a jogar pedras nos policiais. A foto começou a se desenhar na minha cabeça. Deparei-me numa posição em que para todos os lados que eu olhava via forte repressão policial. Consegui, nesse momento, congelar a essência da polícia e o sentimento que estava dentro de mim. A repressão e a violência da polícia são algo presente na rotina de milhares de brasileiros. Por muito tempo, vivi na minha redoma sem perceber a realidade do país, e foi naquele primeiro protesto do Movimento Passe Livre, em 6 de junho, que aflorou um sentimento de luta conjunta, todos buscando um país melhor e mais justo. A luta continua!" Gabriela Batista, fotógrafa.
Largo da Batata, São Paulo, 17 de junho de 2013. "A foto foi feita ao longo do percurso do quinto ato convocado pelo Movimento Passe Livre. Após uma sequência de hostilidades e abusos por parte dos policiais, este ato se destacou por ter mobilizado centenas de milhares de pessoas. A foto busca representar justamente a força da população que saiu às ruas reivindicando os direitos há muito negligenciados pelo Estado. Muito cedo percebi que esses movimentos, convocados pelo MPL, eram algo que vinha sendo esperado há muito tempo, como um grito engasgado na garganta do povo. Assim, minha vontade de fazer parte das manifestações populares foi bastante natural. Da mesma forma, usar a fotografia como modo de participar desses momentos marcantes na história do país." Gabriel Vinicius Cabral, fotógrafo.
Avenida Paulista, São Paulo, 13 de junho de 2013. "Nesse dia, eu estava acompanhando as manifestações de casa e fiquei inconformado com a atitude da polícia diante dos manifestantes e da imprensa. Queria participar de qualquer maneira daquilo, ainda mais sabendo que vários amigos meus estavam na rua sendo machucados. Queria me vingar de alguma maneira. Cheguei à Avenida Paulista por volta das 22h30 sob bombas de efeito moral e tiros de borracha. Num momento, percebi que um grupo de policiais queria fechar um bar a força e invadiu o local gritando para os fregueses irem embora. Foi então que eu vi um casal cercado por PMs e passei a acompanhar a cena. Um dos policiais bateu neles e eu apertei o disparador da câmera com muita raiva por estar presenciando aquilo. No primeiro dia, percebi que estávamos passando por uma revolução. Eu queria contribuir de alguma forma com as manifestações e com a possibilidade de mudanças em nosso país. É um momento importante para nós e para nossa história, e eu quero participar disso. Tenho uma arma em minhas mãos mais forte do que qualquer bala de borracha. Eles atiram e a gente responde com imagens que ficarão marcadas para sempre." Eduardo Anizelli, fotógrafo.
Rua Augusta, São Paulo, 13 de junho de 2013. "Manifestante puto comigo. 'Filho da puta, imprensa marrom do caralho.' Polícia puta comigo. 'Vocês três estão presos; para o outro lado da rua, porra!' Era hostilidade para todos os lados. Resolvi sair de casa naquela quinta-feira depois que um amigo postou o editorial do Estadão e da Folha de São Paulo. Ambos jornais cobravam uma ação enérgica da polícia contra os manifestantes. 'Os vândalos não podiam parar a Paulista de novo', segundo os textos. E eu não pude deixar de testemunhar e, consequentemente, sofrer o abuso." Bruno Miranda, fotógrafo.
Avenida Rebouças, São Paulo, 7 de junho de 2013. "...Vem pra rua, vem...contra a tarifa...". Esse era o grito que ecoava passarela acima, enquanto inalava o frescor do spray ainda úmido no vidro. Subi rapidamente e me posicionei de modo que pudesse transparecer em grande escala um dos verbos mais conjugados até hoje desde que fomos descobertos pelos portugueses. Ali, fiquei por uns três minutos. Queria um momento que fosse possível sincronizar o movimento, as expressões, o rosto de quase todas as pessoas, algo valioso em contraponto ao "roubo". Vários pedestres também fotografavam ao meu lado e em boa parte da passarela. Curioso. Uma jovem olha e me pergunta: "Esse reflexo não está te atrapalhando, não?". Disse a ela: Não, moça. O que me incomoda é o significado do que acabou de ser escrito aqui. E desci. A rua ecoava "...Mãos para o alto, 3,20 é um assalto...". Caminhava a passos largos, arrepiado. Minhas artérias pulsavam em sincronia com o sentimento que vinha do asfalto até, obviamente, ser dissipada pela truculência desmedida da PM. No mesmo momento em que um ilustre promotor, do ar condicionado do seu blindado, postava os manifestantes como "bando de macacos revoltados, petistas de merda, e que, se o Choque os matasse, ele arquivaria o inquérito, pois Pinheiros pertencia ao seu tribunal do júri". Declaração preocupante num regime democrático, mas considerada superficial pela velha mídia, que satanizava os manifestantes e, como na ditadura, mantinha o cordão umbilical com o Estado por interesses próprios, e não os da sociedade. A moçada do Movimento Passe Livre reacendia a chama da dignidade de forma autêntica, legítima, sem partido, de cidadãos inconformados para uma sociedade refém da própria ausência quase que patológica do direito a se manifestar, anestesiada no sofá por novela e futebol. Desde então, tenho testemunhado todas as manifestações como um dever aos cidadãos impossibilitados de se somar a eles, ali, no meio do gás e dos estilhaços, que ferem mas não calam a urgente necessidade de mudança. Um momento pessoal singular. Percebi que posso, sim, e devo participar de um movimento histórico, que colabore para a reflexão dessa transição através de um retângulo, algo que jamais poderia sair da nossa memória e que deveria permear a sociedade através da nossa presença maciça nas ruas. Um documento valioso, honesto e revelador. Sem roubo. É por isso que dedico minha vida à fotografia." Mauricio Lima, fotógrafo.
Avenida 23 de Maio, São Paulo, 20 de junho de 2013. "Estava acompanhando um grupo de manifestantes que havia se separado da grande massa. A manifestação em si já estava aparentando que terminaria tranquila e que ficaria apenas entre a rua da Consolação e a estação Paraíso do metrô. Foi quando esse grupo desceu para a avenida 23 de Maio e resolveu parar os carros. Foram descendo aos poucos pela lateral da entrada da estação e rapidamente a avenida foi tomada. De cima do viaduto, eu via os motoristas confusos e tentando retornar, muitos efetivamente retornaram na contramão. Fiquei emocionado ao perceber que o grupo era formado por famílias, casais, grupos de jovens, e que eles estavam ali, com seus corpos, fazendo a 23 de Maio parar. Eu vinha acompanhando as manifestações pela imprensa e conversando com colegas que estavam cobrindo os protestos. Após o dia em que houve a maior repressão por parte da PM, achei que deveria me juntar na cobertura e ter meu próprio ponto de vista, dar minha visão dos fatos. Nesse momento, acredito que nós, fotojornalistas, somos parte desse processo, mesmo que essa parte seja simplesmente estar lá e testemunhar, o que já acho de grande importância para a história do nosso país." Keiny Andrade, fotógrafo.
Largo da Batata, São Paulo, 17 de junho de 2013. "Esta foto foi produzida no quarto ato contra o aumento da tarifa do transporte público. Havia uma grande mobilização policial no Largo da Batata, devido ao ato anterior ter sido marcado por violentas ações e tentativa de ocupação do prédio da Prefeitura de São Paulo. Foi meio insano pra mim, muita gente caminhou do Largo da Batata até a ponte Estaiada e se dividiu para o Palácio dos Bandeirantes para, em seguida, voltar à avenida Paulista. Eu venho fotografando as manifestações praticamente desde que iniciei minha relação com a fotografia e sempre com o objetivo de mostrar os conflitos sociais. No caso das manifestações do MPL, também venho desde o início dos primeiros protestos contra o aumento da tarifa do transporte em 2006. Meus motivos, além do fato jornalístico: sou usuário do transporte público e sei o que se questiona quando se fala do aumento da tarifa e quanto isso afeta diretamente o orçamento de alguém que necessita desse serviço, caro e precário." Anderson Barbosa, fotógrafo.
Avenida Pedroso de Moraes, São Paulo, 7 de junho de 2013. "Estávamos na segunda grande mobilização de junho, já havia andado horas e horas, os manifestantes tinham sido atacados diversas vezes pela PM, ocupado a marginal Pinheiros e vivíamos um momento breve de calmaria. De repente, me deparei com esse manifestante, que havia sido atingido de raspão por fragmento de bomba de efeito moral. Foi um encontro cúmplice. Ele me pediu essa foto, porque acreditava que era um testemunho, eu fiz. Já não tiveram a mesma sorte nosso colega fotógrafo Sérgio Silva e, mais recentemente, o streamer Vitor Araújo. Há pelo menos 2 anos, tenho fotografando praticamente todas as manifestações e expressões das ruas de São Paulo. O primeiro ato do Movimento Passe Livre foi um impacto, todos os que participaram e cobriram sentiram que aquilo não era normal, e que provavelmente não haveria um retorno ao normal tão cedo. Depois do primeiro ato, o foco foi total em documentar tudo que rolava. Quando São Paulo "esfriou", segui para Belo Horizonte e Rio, nas finais da Copa das Confederações; depois para o Cairo, no Egito, na queda do presidente Mohamed Morsi. A clareza de que vivemos um período histórico de intensas transformações nas relações econômicas e sociais é o motor para ter ido e continuar indo às ruas sempre que necessário. Mais do que isso, é impossível não visualizar tudo o que está se passando no mundo como uma coisa só, integrada, com indignações e demandas tão comuns." Rafael Vilela, fotógrafo.
Avenida Paulista, São Paulo, 26 de julho de 2013. "Impossível não lembrar do "Movimento 26 de Julho M-26-7", fundado em 1954 por Fidel Castro e seus companheiros, contra o ditador Fulgêncio Batista. Aqui, no caso, o protesto era em apoio aos manifestantes cariocas, que vinham fazendo atos contra o governador Sérgio Cabral. Com bastões de ferro, martelos e muitas pedras, o alvo era apenas um: qualquer banco! Foi uma sequência de ataques avassaladora, que deixou 13 bancos destruídos. O clima era muito tenso, e eu tentava me manter calmo, preocupado em não ser atingido enquanto pedras voavam sobre mim em direção à vidraça do Itaú. Quando vi a força do Movimento Passe Livre contagiando o Brasil e estressando a mídia, que denegria o movimento, não pensei duas vezes: quero fazer parte disso, vou fotografar! O Movimento Passe Livre e o povo tiveram a sua pequena primeira vitória, a tarifa baixou… Porém, como fotógrafo e cidadão, não aguento mais viver no país da injustiça. Temos que voltar às ruas em maior número e continuar protestando de todas as maneiras possíveis. Essa safadeza tem que acabar, de um jeito ou de outro!" Daniel Kfouri, fotógrafo.
Praça do Ciclista, São Paulo, 1 de agosto de 2013. "Era quinta-feira. Estava no escritório monitorando pelo telefone a manifestação na Paulista com o Mauricio Lima e o Ignácio Aronovich, que já estavam em campo. Gui [Von Schmidt] e eu alcançamos nossos amigos na esquina da Brigadeiro Luís Antonio e seguimos juntos em direção à Consolação. Tudo dentro da dinâmica da maioria das duas ou três manifestações anteriores; naquele momento um passeio. Os manifestantes de preto andavam no meio dos automóveis com o rosto escondido, braços descolados do corpo tipo 'tô a fim de porrada' e muita provocação contra a PM, que acompanhava o protesto ao largo, como de costume, montando guarda principalmente em frente das agências bancárias. Na esquina da Bela Cintra, se não me engano, ouve uma investida contra a drogaria Onofre e aí saiu a faísca necessária, rolaram os primeiros atritos e as primeiras imagens de ação. Como no centro histórico de São Paulo, as manifestações na Paulista são bem fotogênicas, os prédios modernos, a pujança, o 'primeiro mundo' em segundo plano... Esta foto que eu selecionei não mostra isso, é fechada na manifestante menor de idade e nos policiais da Forca Tática. Na verdade, não vi o momento em que os policiais se estranharam com a menina, peguei o bonde andando, fui correndo e clicando, na mesma passada, tentando dar uma compensada na baixa luz. Os protestos nesse dia já estavam sendo protagonizados apenas pelos ativistas Black Bloc e eu já estava desacreditando que alguma mudança maior ainda pudesse vir pelas ruas. A violência já havia espantado a massa que protestou em junho, e o que era esperança, especialmente agora pela adesão zero da população no episódio do julgamento do mensalão, é só passado. Meu sentimento naquele instante? O do fotógrafo em busca de uma boa imagem política, e o exercício. Meu sentimento hoje? Decepção." Fernando Costa Netto, fotógrafo.
Avenida Luís Carlos Berrini, São Paulo, 30 de agosto de 2013. "Esta manifestação foi mais tranquila para fotografar do que as anteriores. A concentração começou com cerca de 200 pessoas carregando cartazes, lambes e adesivos e dava para perceber que renderia boas imagens. Fiquei surpresa quando vi o saco de estrume com água, por isso eu realmente não esperava! Quando alguns manifestantes começaram a pular as grades para arrancar o logo da emissora, confesso que senti uma alegria misturada com excitação. O sentimento foi de orgulho daquelas poucas pessoas terem coragem de intimidar a poderosa Rede Globo. Eu me senti fazendo parte daquilo. Em junho, assim que soube do aumento da tarifa, tinha certeza de que haveria uma manifestação do Movimento Passe Livre. Eu queria fazer parte daquele momento do meu jeito, fotografando. Embora nesse primeiro momento eu não acreditasse que as manifestações conseguiriam a redução da tarifa, eu já sabia que mesmo assim seria um ato histórico. Era a vez da minha geração dizer que estava insatisfeita. As lentes trazem uma dose de realidade e, conforme as manifestações foram crescendo e ganhando adesão popular, ficou inevitável eu me envolver, me emocionar. Esse negócio de que jornalista é imparcial é pura balela. Me sinto bem em poder contar para os brasileiros de hoje e de amanhã o que eu enxergo através da minha câmera." Gabriela Biló, fotógrafa.
Rua Bela Cintra, São Paulo, 13 de junho de 2013. "Foi um dia histórico. Eu estava do lado da Tropa de Choque quando o primeiro tiro foi disparado na esquina da Maria Antônia com a Consolação. Foi o início de uma batalha em que a PM agiu com truculência, desconhecida fora da periferia. Fiz essa foto sentindo revolta pela injustiça que eu estava vendo naquele momento. Jovens, sem armas, manifestando seu direito, foram cercados e tratados como inimigos do Estado. Este dia foi o momento crucial dos protestos de junho. A mídia, que dias antes havia publicado editoriais criticando as manifestações, após ver seus jornalistas sendo feridos, mudou o discurso e passou a apoiar os protestos. O Brasil inteiro, ao ver as imagens de violência gratuita, foi para as ruas. O que havia começado apenas por vinte centavos virou algo muito maior, e o dia 13 foi um catalisador importante. Moro na Av. Paulista e fotografo diversos protestos e manifestações. Havia algo diferente em junho; era perceptível que estava acontecendo algo histórico. Fotografo para preservar a memória visual de um momento importante para o futuro, e não pensando na publicação imediata. As motivações são as mesmas de muitas pessoas que foram para as ruas: insatisfação e revolta contra a corrupção, impunidade e descaso com causas importantes do nosso país, como saúde e educação. A truculência policial também acabou virando uma motivação, já que em quase todos os protestos documentei abusos e violência desproporcional ou gratuita. A fotografia é importante para que não esqueçamos o que aconteceu e para tentar evitar que algumas coisas ocorram novamente." Ignácio Aronovich, fotógrafo..
Ponte Estaiada, São Paulo, 17 de junho de 2013. "Nesse dia, ocorreu a primeira manifestação em que a polícia e o governo de São Paulo estavam sendo acusados na imprensa de violência e covardia. Milhares de pessoas se uniram aos protestos do Movimento Passe Livre, que lutava por segurar o aumento das passagens de ônibus em várias cidades do país. Antes disso, esse mesmo movimento era criminalizado e sofria forte repressão policial quando interditava as principais vias das cidades, tentando chamar a atenção para a causa do transporte público e gratuito. Quem estavam nas ruas nesse dia [e nessa foto] não eram mais somente os estudantes e os movimentos sociais, mas também a classe média, pautada por alguns jornalistas de TV, contra tudo e contra todos. E foi a partir desse dia que algumas cidades baixaram as tarifas de ônibus. Ainda assim, sem uma pauta definida e estimulada pela mídia, em todas as regiões do Brasil a população foi às ruas com demandas diversas. A popularidade da presidente Dilma caiu e os governos e parlamentares se movimentaram para atender algumas dessas reinvindicações. A imprensa também passou a ser fortemente atacada. Com a depredação de carros e fachadas de grandes empresas de televisão, eles retiraram o apoio e novamente passaram a criminalizar alguns protestos, tratando os manifestantes mais radicais de vândalos. A onda recuou. Atualmente, quando ocorrem manifestações, são formadas por pequenos grupos que ainda interditam ruas e avenidas. Sempre fotografei manifestações para tentar entender os movimentos nas ruas. Minha percepção desse período é que existiram demandas sociais legítimas, mas também um forte movimento gerado pelas TVs, que usaram o ufanismo e o "direito de manifestar" como argumento. Sigo fotografando o máximo de manifestações possível com esse mesmo objetivo." Marlene Bergamo, fotógrafa.
Avenida Luís Carlos Berrini, São Paulo, 11 de julho de 2013. "Segui com amigos fotógrafos a um ato em repúdio à concentração e ao monopólio midiático que vigora na chamada grande-mídia brasileira. Aquele seria um ato interessante, partindo do princípio que o país tem poucos, porém grandes grupos que concentram o poder da informação. Estava tudo previsto para ocorrer em frente da sede da Rede Globo, numa região extremamente valorizada e onde se aglomeram escritórios de corporações e grandes empresas em São Paulo. O clima estava tranquilo, com muitos grupos de artistas realizando performances ao longo da caminhada. Mas em frente do portão principal de acesso à emissora havia um grande batalhão do Choque, polícia especializada em “contenção de distúrbio público”. Obviamente a situação se tornou tensa, mas não houve nenhum tipo de confronto entre manifestantes e policiais. Segui acompanhando o grupo (em torno de 2 mil pessoas), mas sem deixar de me preocupar com a presença ostensiva da polícia. Olhei para trás e me deparei com uma formação clássica das tropas de choque. Perfilados, eles defendiam as torres e corporações da região, isolando os manifestantes do acesso direto a esses espaços. Não era um simbolismo somente, era uma postura física agressiva e recorrente da Polícia Militar. Era uma imagem que soava urgente e simples: o poder protegendo aqueles que o detém. Fui às ruas por motivações políticas. Tive uma formação pautada por debates e ocupações dos espaços públicos e que me leva a acreditar que todo tipo de ação pública gera debate, reflexão e, posteriormente, movimento. Não tinha clareza da dimensão que tomariam os atos e protestos por todo o país, mas senti (e sinto) que é esse um momento de ampliação dos debates e de tomada de ações. Minha contribuição - por produzir narrativa e visualmente - se deu através da fotografia e do vídeo. Não existiam e não existem motivações que não políticas ao assumir uma câmera e me posicionar diante do que testemunho. Assim, pretendo construir coletivamente uma teia narrativa de visões e formações políticas variadas, mas que buscam compreender o que acontece e se preocupam em tomar posições diante do mundo e de suas injustiças." Renato Stockler, fotógrafo.
Viaduto do Chá, São Paulo, 18 de junho de 2013. "A situação estava fora de controle fazia tempo. Quando cheguei no local, as vidraças da Prefeitura já haviam sido quebradas e alguns manifestantes tentavam impedir que se quebrassem mais. Depois disso, bancos foram destruídos, lojas foram saqueadas, uma unidade móvel de TV foi queimada como troféu, tomei pedrada e uma lente se quebrou. No momento dessa foto, os revoltosos comemoravam a situação de controle, já que os poderes públicos bateram em retirada. Quando as bandeiras da cidade foram baixadas e queimadas, já não havia mais nenhum sinal do sistema vigente. A minha motivação principal foi um sentimento de insatisfação com a política brasileira. Uma cidade que não é para o povo, em que as ruas são para carros, da polícia que trata seus cidadãos como inimigos, em que você é obrigado a conviver ano após ano, governo após governo. Catalisou-me também a imagem dos policiais espancando um jovem jornalista, totalmente indefeso, na televisão. Como fotógrafo, me senti no dever de presenciar e registrar esse momento histórico, ser uma testemunha dos fatos e ter uma visão independente dos conflitos." Cauê Ito, fotógrafo.