Matéria Publicada na Revista TRIP n. 38 - 1994

 

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De Santarém a Cuiabá, nosso fotógrafo percorreu uma parte esquecida do Brasil - a Transgarimpeira (BR-163). Foram 12 dias e 3.200 km em 15 carros off-road atravessando lama, chuva, e cidades onde a lei é uma arma no cinto.

 

Quando recebi uma passagem só de ida para Santarém e uma data indefinida para voltar percebi que não se tratava de um evento qualquer. O Axe Adventure - Warn Expedition confirmou a suspeita. Com um forte esquema de marketing, patrocínios e muito planejamento logístico, foi viabilizado um grande evento de off-road.

A lista de integrantes da expedição era um "who's who" de foras-de-estrada no Brasil. Quase todos tinham experiência em eventos de gênero. Finalistas de Camel Trophy, pilotos do Paris-Dakar e aventureiros com generosa quilometragem reuniram-se para enfrentar a rodovia federal BR-163, conhecida como Transgarimpeira.

Ligando Santarém a Cuiabá, a estrada é completamente intransitável durante a época de chuvas. O evento seria um verdadeiro test-drive/expedição com quinze veículos 4z4 de seis marcas diferentes, nacionais e importados, equipados com guinchos Warn e preparados para enfrentar quaisquer obstáculos que, invariavelmente, apareceriam durante o percurso até São Paulo.

Para alguns a aventura já havia começado, já que os veículos foram transportados de "cegonha" até Belém, e suportaram mais cinco dias de balsa para chegar a Santarém, onde ficaram aguardando a nossa chegada. Ali começaria a expedição.

Após um vôo conturbado por longas escalas, chegamos a Santarém. A manchete do jornal local já avisava: "Lama e Tragédia na Transamazônica". O texto falava da chuva incessante que atormentava a região há dias. Com os carros abastecidos de comida e combustível e uma maratona de preparativos finais, começamos a nossa viagem sem ter noção do que esperar pela frente.

SALADA ITAITUBA

Na segunda-feira, 11 de abril, saimos de Santarém sob chuva. A ansiedade dos off-roaders por lama tornou a pilotagem divertida com todos tentando entrar na lama deliberadamente. "Los espanoles quieren barro", afirmavam meus companheiros de viagem. O tempo melhorou logo depois e ai saimos do asfalto. Um ou outro pneu furado foram os maiores contratempos. No caminho, nos deparamos com crianças sendo levadas para vacinação em um carrinho de mão e começamos a compreender as dificuldades de quem vive na região. Não há abastecimento regular nem como escoar o que se produz. Não cruzamos muitos veículos, só um eventual caminhão ou ônibus até a entrada da Transamazônica.

No final da tarde, acampamos na fazenda Goiás, com 254 km rodados. À noite, o primeiro banho de rio sob estrelas (inacreditável!) No jantar, feijoada em lata, cerveja, e a maior criação da nouvelle cuisine amazônica: a salada Itaituba-atum, milho, ervilhas, palmito, presunto, e salsichas misturadas em uma tigela temperados com sal e azeite a gosto. Devidamente servida em uma fatia de pão de forma sem tostar, temos o taco da Amazônia. Em alguns momentos cheguei a gostar da especialidade, mas, por enquanto, não sinto saudades.

Em lugar estrategicamente escolhido, montei minha barraca. Longe dos roncos incessantes dos mais cansados e do barulho forte do gerador da Rede Globo recarregando as baterias, consegui descansar muito bem.

CARAVANA ROLIDEI

Na manhã do dia 12, fui acordado por uma chuva torrencial. Minha barraca passa no teste, e graças a Deus, tudo está seco. Ouçø outros que não tiveram a mesma sorte resmungando. Desmontamos o acampamento rapidamente sob a chuva. O grupo aumenta com a chegada de um Toyota, com três integrantes Jeep Clube do Brasil que decidiram seguir o comboi por conta própria. Com mais de 3.000 km rodados desde Valinhos (SP), contavam histórias de dificuldades enormes que tiveram durante o percurso. Enquanto isso, chuva e sol alternavam-se durante o dia, brindando-nos com um arco-iris ocasional.

Nos dias que se seguiram, as dificuldades aumentavam e os obstáculos eram cada vez maiores. Ja não havia necessidade de tenatar passar pela lama; a essa altura não se podia mais evitá-la. A Toyota ficou "encalacrada" na entrada de uma ponte submersa, e os outros membros da expedição aproveitaram a parada para um banho. Durante as inúmeras tentativas para soltar o jipe, o espanho Luis fez um corte no nariz.

Rapidamente, Crescência Carvalho, o médico da expedição, suturou o corte com quatro pontos dados com a precisão de um cirurgião plástico. Até então, Crescêncio havia recitado ant-diarréicos para as principais ocorrências médicas. Durante toda a viagem, o médico distribuiu centenas de medicamentos para as pessoas que encontramos no caminho; um trabalho muito valioso nessa região tão carente de serviçøs sociais. Um Brasil praticamente esquecido.

ME GUSTA EL BARRO

O atraso no Rio Jaminxinzinho diminuiu ainda mais a nossa quilometragem percorrida durante o dia, mas o pior ainda estava por vir. Atoleiros intermináveis e pontes inexistentes, submersas ou danificadas eram nossos maiores obstáculos. No dia seguinte percorremos somente quinze quilometros, arrastando-nos uns aos outros em enormes lamaçais. Somente com a ajuda dos guinchos e do poderoso Mercedes Unimog foi possível atravessar o maior atoleiro que encontramos pela frente. Os espanhóis, curtindo muito a lama, rebocaram quase todoso os veículos, um após o outro, deitando e rolando no barro. Ao final, já tarde da noite, vitoriosos cantavam "Yo para ser feliz quiero un camion!" em ritmo de rockabilly.

Exaustos, chegamos no acampamento em Aruri. Após um banho e um bom jantar, estávamos nos sentindo bem mais civilizados. Depois de poucas horas de sono, partimos novamente. Desta vez levando mais duas pessoas: Maria Farias dos Santos, 20 anos, contamindada por malária e já bastante doente, e seu companheiro, Virgílio. Eles nos acompanhariam até Moraes de Almeida, onde havia um posto da SUCAM que poderia ajudá-los.

COCA-COLA E MULHER

Por onde quer que passassemos, as pessoas nos diziam que adiante estava pior e que era impossível prosseguir. A nossa salvação foi que, cinco dias antes de partirmos de Santarém, um comboio de caminhões liderado por dois tratores partiu na mesma direção. Os caminhões vão de Itaituba (PA) até o Garimpo Quiporizão levando cerveja, Coca-cola, óleo, arroz, gasolina, e mulheres. Liderados por Valdecir José de Matos, o "seu Dedé", com oito anos de experiência no trajeto, os caminhoneiros construiam pontes sólidas e seguras-pelo menos até a próxima chuva forte.

Até alcança-los tivemos poucas dificuldades, pois os tratores consertavam as pontes e melhoravam as condições da estrada. Quando os avistamos, estavam concluindo uma ponte. Ultrapassamos o comboio, mas não fomos muito longe-mais um rio com forte correnteza, sem ponte, impedia nossa passagem. Decidimos acampar para começar a construir a ponte no dia seguinte. Calculamos que tardariamos de dois a três dias para conseguir concluir a ponte.

Pela manhã, o comboi dos caminhões nos alcançou e nos poupou do trabalho. Em menos de duas horas, com um show de experiência que somente muita experiência pode proporcionar, a ponte estava pronta. Se não tivessemos encontrado o comboio, estariamos ainda mais atrasados em nosso cronograma.

a noite, passamos por Riozinho, cidade de garimpo, ambiente totalmente contaminado pela malária. No pequeno povoado, reúnem-se garimpeiros de toda a região para beber e se divertir com as mulheres. O clima pesa. Quando chegamos, estava aconetecendo um velório, o que não fez muito para nos convencer a ficar. Nesses povoados, a lei é uma arma na cintura e arrumar confusão é tarefa das mais simples. Após uma decisão controvertida, prosseguimos. Acabamos acampando, 66 km depois do vilarejo, no meio de um atoleiro.

Sem forças para cozinhar, todos montaram suas barracas e tentaram descansar. Acordei com a sensação que havia acabado de fechar os olhos. Após um banho de rio e uma sopa quente, estava pronto para mais um dia. em pouco tempo, ganhávamos novamente a estrada

EXERCITO INVASOR

As cidades passavam como sonhos. Por onde circulássemos, o impacto era evidente. Éramos praticamente um exército invasor, em qualquer povoado causávamos a maior comoção. Terminávamos com o estoque de pequenos mercados que fechavam suas portas quando partiamos.

Em Peixoto de Azevedo, encontramos os asfalto. Depois de tantos buracos, placas indicando quebra-molas eram motivo de riso. Com o comboio alinhado, fotográfos e e TV posicionados, Jorge "Rambito" desceu do Land Rover e beijou o solo, repetindo o gesto do Papa em todos os aeroportos.

De acordo com o roteiro original, deveriamos seguir Xingu adentro pela BR-080, mas estávamos bem atrasados e tivemos que nos dirigir diretamente para Cuiabá. Era o fim da aventura. Depois, mais de 2000 km de asfalto até São Paulo, com dias inteiros na estrada para absorver lentamente tudo o que havia se passado.

Conhecemos um Brasil diferente, onde as dificuldades são imensas, as pessoas tem muita fé, e acreditam que as coisas irão melhorar, à beira de uma estrada que o País esqueceu.

 

LOST ART